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Cristofobia: por que (quase) ninguém está falando sobre isso?

Atualizado: 16 de set. de 2025

Na última quarta-feira, 10 de setembro, o assassinato a tiro de Charlie Kirk, de 31 anos, durante uma palestra no campus de uma universidade no estado de Utah (EUA), chocou o mundo.


A cena, cruel o suficiente para os padrões que a situação envolvia (um encontro com jovens estudantes e outros convidados, numa manhã ensolarada, num debate despretensioso e relaxado), foi filmada de diversos ângulos e rapidamente se alastrou nas redes sociais como um rastilho de pólvora, mostrando Kirk recebendo o disparo fatal em seu pescoço e efetuando um único movimento sincopado para trás, quedando inconsciente enquanto lautos jatos de sangue jorravam de uma artéria rompida. Ele foi declarado morto momentos depois, após dar entrada em um hospital.


Quase que de imediato, a notícia, ao mesmo tempo em que provocou uma comoção não apenas entre os americanos, também gerou comentários desrespeitosos quanto ao homicídio em questão, havendo até mesmo quem celebrasse efusivamente a morte daquele jovem. Aqui no Brasil, chamou a atenção o caso de um médico de Recife, que foi penalizado laboralmente por ter publicado em sua conta no Instagram um comentário jocoso sobre o atentado, porém não sendo um caso isolado.


Um dos milhares de memoriais para Charlie Kirk durante vigília pelo seu assassinato (Reprodução: Google).
Um dos milhares de memoriais para Charlie Kirk durante vigília pelo seu assassinato (Reprodução: Google).

Mas quem era Charlie Kirk? Nascido em 14 de outubro de 1993, em Arlington Heights (Illinois), casado e pai de duas crianças de 01 e de 03 anos, ele era um ativista conservador norte-americano, bastante conhecido por promover um projeto junto a jovens universitários denominado Turning Point (Ponto de Virada), onde propunha debates sobre valores cristãos, livre mercado e o papel do Estado.


O Turning Point logo se espalhou por diversos campi de faculdades nos EUA, mas o trabalho de Kirk não se limitava apenas a isto. Ele também era um celebrado comunicador, liderando o podcast e programa de rádio The Charlie Kirk Show, tendo também escrito um livro intitulado The MAGA Doctrine, relatando a política do Make America Great Again (MAGA), capitaneada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, com quem possuía uma estreita relação.


Obviamente Kirk colecionou desafetos, que com frequência atacavam principalmente seus posicionamentos cristãos, porém o que se passou neste fatídico 10 de setembro de 2025 será recordado como mais um ato extremado de um movimento que vem, em meio ao silêncio, ganhando corpo e se tornando uma ameaça existencial real e que merece ter seu nome dito enfaticamente: a cristofobia.  


Isso porque a investigação sobre o autor do crime logrou prender um jovem de 22 anos chamado Tyler Robinson, que se identificava como antifascista e que declarava não gostar de Kirk porque "ele era cheio de ódio e espalhava sua ideologia [o Cristianismo] de ódio".


Dilema conceitual?


Como definir cristofobia?


Etimologicamente, a tarefa é facílima: seria a aversão a Cristo e ao Cristianismo. Contudo, como esta aversão seria operacionalizada e, especialmente, sob qual padrão de ações estaria caracterizado um mecanismo voltado a uma  sistemática política discriminatória dos cristãos? Entramos então em um terreno movediço, alimentado em parte pela própria ousia que compõe a fé cristã, em parte pelas diversas perspectivas a quem analisa o tema.


Os primórdios do Cristianismo revelam um grupo de pessoas que seguia um estilo de vida antagônico a tudo o que se pregava e que se tinha como regra de vida na ocasião, pessoas estas inspiradas por um profeta que dizia ser o Filho de Deus e que seu reino não seria desse mundo, conclamando seus seguidores a se absterem de prazeres e bens terrenos e se prepararam para a redenção da humanidade, que haveria de se concretizar com seu retorno após sua morte e ressurreição.


Entre vários outros ensinamento, Jesus Cristo pregou para estas pessoas acerca da não-violência, algo muito hialino quando proferiu as boas aventuranças, uma série de ditames presente no Novo Testamento bíblico sobre como alcançar a felicidade e a elevação ao divino, quando declarou que “bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa” (Mateus 5:11), orientação que mais tarde foi reforçada por alguns evangelistas seguidores de Jesus, como Paulo e Pedro, este último pontuando “que se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus por meio desse nome” (1Pedro 4:16).


Se existe algo sabido por todo cristão praticante é que a sua Igreja não apenas cresceu alicerçada no desprendimento do universo material, mas igualmente foi regada pelo martírio de muitos devotos que antecederam as gerações atuais, isto bem antes da oficialização do credo como religião oficial do Império Romano, que até ali se notabilizava por uma sanha implacável em varrer da face da Terra qualquer pessoa que ousasse se dizer seguidora de Cristo, atingindo seu paroxismo com o imperador Diocleciano, que durante o século III a. C. mandou tantos cristãos para a morte que as estatísticas fariam o famigerado Nero mais parecer um aprendiz na arte da carnificina.


Ainda assim, Diocleciano, certa feita, bradou estupefado: “Não entendo este povo! O sangue dos cristãos parece semente – quanto mais é derramado na terra, mais convertidos surgem por todos os lados!”


Fato é que a igreja de Cristo superou tais intempéries e prosperou, expandindo-se exponencialmente e alcançando todos os continentes no decorrer da História, bem como se dividiu em três ramificações principais (católicos, protestantes e ortodoxos), cada uma delas, em maior ou menor número, com suas próprias derivações.


Vários tons de perseguição


Há uma disputa se hoje seria o Cristianismo ou o Islamismo a religião com mais adeptos no mundo, mas é inquestionável que a disseminação geográfica dos cristãos por toda a Terra é significativamente mais pronunciada, enquanto que o Islamismo, malgrado possuir relativa representação em certas áreas do Ocidente, é predominante numa região especifica do globo, que abrange o Norte da África, o Oriente Médio e a Ásia Central.


Esta área é delimitada pelos paralelos Norte 10 e 40, perfazendo um esboço de um extenso retângulo que é conhecido como a Janela 10/40, e segundo a organização Portas Abertas, fundada no ano de 1955, este é o lugar mais avesso à religião cristã em todo o planeta.


Este dado não é mais uma informação jogada aos quatro ventos sem embasamento factual, fenômeno cada vez mais comum dentro da estratégia de manter o assunto no nível da desinformação. Anualmente, a Portas Abertas divulga a lista dos 50 países que mais perseguem cristãos, e sempre que o rol é revelado, a grande maioria deles se acha na Janela 10/40 (veja abaixo a lista mais recente, deste ano de 2025).


A Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, adotada em 1951, não define a cristofobia entre as causas de expulsão de pessoas de seus territórios de origem, mas o relatório anual da organização acima categoriza perseguição religiosa como qualquer hostilidade experimentada como resultado da identificação de uma pessoa com Cristo, o que inclui atitudes hostis, palavras e ações contra cristãos.


As estatísticas são preocupantes: hoje, segundo a Portas Abertas, mais de 260 milhões de pessoas no mundo enfrentam algum tipo de oposição como resultado de sua identificação com Cristo.


Assim, desde a Coreia do Norte – onde o Cristianismo é proibido ao ponto de condenar à morte quem vier a ser encontrado com uma Bíblia, levando todos os parentes até o terceiro grau do executado para a prisão perpétua – até algumas nações presumivelmente inócuas a este fenômeno, hoje restam poucos lugares nos quais não se ateste ao menos um mero ato intimidatório contra os cristãos.


As modalidades de perseguição são variadas e incluem até mesmo iniciativas estatais,  adentrando na esfera privada das pessoas e gerando sanções civis e criminais, como acima relatado na Coreia do Norte ou, de modo mais brando, no que ocorre em países de maioria islâmica (proibição de conversão, de proselitismo, de reuniões de oração e de atos públicos de fé), com exceções a este panorama, como no Paquistão, onde a blasfêmia é punida com a morte, e dentro da interpretação do que viria a ser este crime, cabe qualquer coisa ao bel-prazer do julgador, inclusive o simples fato de um cristão dizer que não concorda com o que o Islamismo prega.


Na China, que figura no topo da malsinada lista, existem igrejas de alguma vertente cristã, porém até mesmo os sermões a serem pregados precisam passar por um departamento governamental especializado em revisar o texto e censurar passagens que afrontem os princípios marxistas do país. Outras igrejas além das estatais?  Sem chance. É bem sabido o fato de que muitos chineses se reúnem em igrejas secretas, sejam elas em residências, em construções abandonadas e até em cavernas, mas uma vez descobertas, as penalidades aos seus membros são bastante severas.


Encenação pública exibindo como são torturados os cristãos nas prisões chinesas (Reprodução: Google)
Encenação pública exibindo como são torturados os cristãos nas prisões chinesas (Reprodução: Google)

Na África, é gritante o que se passa na Nigéria, dividida ao meio no sentido Leste-Oeste. Na parte Norte predomina a população islâmica, enquanto que os cristãos são majoritários ao Sul. Ocorre que é no Norte onde a guerrilha Boko Haram, que colabora com o infame grupo Estado Islâmico (ISIS), atua há anos, queimando igrejas, decapitando padres, pastores e fieis, sequestrando jovens moças para serem utilizadas como escravas sexuais dos seus soldados e destruindo aldeias inteiras.


De acordo com a Sociedade internacional para as Liberdade Civis e o Estado de Direito (Intersociety), desde 2009, cerca de 19.100 igrejas foram destruídas na Nigéria, mais de 1.100 comunidades cristãs foram deslocadas e mais de 600 clérigos cristãos foram sequestrados, sendo que o ataque mais recente ocorreu em 13 de junho deste ano, na aldeia de Yelewata, no estado de Benue, quando famílias que já haviam sido deslocadas foram surpreendidas à noite por militantes islâmicos e 200 cristãos foram mortos a tiros ou por golpes de facões.


Mas engana-se quem acredita que na Europa e nas Américas, dois continentes onde o cristianismo não apenas é a religião mais professada, mas também serviu de arcabouço para a construção do tecido social, não exista cristofobia. México, Cuba, Nicarágua e Colômbia aparecem na lista deste ano da Portas Abertas.


A Europa, que na última década recebeu um massivo número de imigrantes muçulmanos, tem experimentado um crescimento de episódios de cristofobia, onde crimes de ódio anticristão aumentaram 44% em 2024 em relação ao ano anterior, segundo o relatório anual do Observatório sobre a Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa (Oidac Europe).


Algumas tentativas de colocar luz sobre eles são encaradas como “discurso de ódio”. Certos incidentes isolados, embora não estejam nos maiores canais de notícias, ganharam relevância e refletem esta realidade no Velho Continente:


- Isabel Vaughan-Spruce foi presa na Inglaterra por orar silenciosamente perto de uma clínica de aborto em Birmingham, em novembro de 2022, sob acusações de infringir uma zona de proteção de acesso seguro. Ela foi formalmente absolvida em fevereiro de 2023, após o tribunal considerar que não havia evidências de que sua oração fosse intimidatória ou que violasse a lei.


- A deputada cristã finlandesa Päivi Räsänen enfrentou um processo judicial em 2019 por publicar dois versículos bíblicos em sua página na rede social X (ex-Twitter), quando questionou a participação da Igreja Evangélica Luterana em um evento LGBT em Helsinque, e mesmo já tendo sido absolvida duas vezes no processo, terá de se explicar perante a Suprema Corte da Finlândia, expondo seus argumentos orais sobre o ocorrido.


- Ainda segundo o Oidac Europe, a França concentrou quase metade dos 2,5 mil crimes anticristãos no continente europeu. Em junho do ano passado, por exemplo, uma igreja Adventista do Sétimo Dia em Dijon foi atacada com gás lacrimogêneo durante um serviço religioso, causando pânico e ferindo nove pessoas. Antes, em 26 de julho de 2016, o padre Jacques Hamel foi degolado após o encerramento de uma missa na sua paróquia, na cidade de Rouen. O país vive um franco processo de descristianização, com cerca de uma igreja sendo fechada a cada duas semanas, conforme sinalizou Edouard de Lamaze, presidente do Observatoire du patrimoine religieux de Paris.

 

Bem distante dali, no nosso Brasil, um dos maiores países cristãos das Américas, surpreendentemente são registrados relatos de ações alegadamente visando à garantia da laicidade do estado brasileiro (argumento tido por alguns como falacioso, pois a existência de um Estado laico não equivale à instituição de um ateísmo legalizado), como se passou na cidade de Goiana (Pernambuco), onde o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) levou ao Ministério Público estadual um pedido de investigação de “intervalos bíblicos” promovidos pelos alunos em escolas estaduais do município (o MPPE decidiu não intervir), sendo mister registrar, em sentido oposto, também em Pernambuco, a aprovação pela Câmara de Vereadores de Recife de um projeto de lei que institui um "intervalo bíblico" nas escolas públicas e privadas.


Igreja destruída pelo Boko Haram na Nigéria (Reprodução: Google)
Igreja destruída pelo Boko Haram na Nigéria (Reprodução: Google)

Motivos e consequência


Pessoas, instituições e governos sobre os quais recaem acusações de perseguição aos cristãos evocam variadas razões para justificarem seus atos.


Primeiramente, quanto aos países de controle totalitário, quase todos calcados na filosofia marxista-leninista, não há muito o que se argumentar. A afirmação taxativa de Karl Marx de que "a religião é o ópio do povo" comparou qualquer credo a uma droga que serve para anestesiar e aliviar o sofrimento real e a miséria enfrentados pelas pessoas, oferecendo, segundo ele, um conforto ilusório que as impede de buscar as condições materiais para a sua própria libertação. 


Nos países muçulmanos, com algumas exceções, existe uma tendência de a confissão islâmica ser adotada como religião de Estado, de modo que os códigos civis e mesmo penais se orientam pelos preceitos da Lei Sharia, um conjunto de normas morais e legais que servem de guia para a vida de todos os muçulmanos. Qualquer regramento fora deste compêndio é ignorado e minorias cristãs costumam sofrer discriminação e perseguição em diversos níveis.


Formatado como uma ideia que celebra e promove a convivência de diversas culturas, valorizando a pluralidade e a inclusão de diferentes identidades sociais, o multiculturalismo tem visto seu objetivo primário se desvirtuar gradativamente, na tentativa de sustentar uma coexistência muitas vezes irreal, pois decerto que algumas matrizes civilizatórias não compactuam com valores ocidentais, no que a promoção gradual de uma revolução cultural está anulando um legado memorial do cristianismo na história da Europa, gerando por consequência ações nocivas aos seguidores desta religião .

 

Por fim, a cultura woke surgiu como uma maneira de, nas palavras de seus idealizadores, corrigir certas distorções históricas por meio do empoderamento de segmentos que sofreram perseguição no passado, sendo muito difundida na mídia e no meio universitário, e neste processo os cristãos estão numa espécie de linha de tiro, pois os ativistas woke bradam que a doutrina pregada por Jesus é exclusivista, patriarcal e discriminatória, discurso que permeia a mente de muitos jovens nos campi de ensino superior, que dada a efervescência característica da idade em que estão, e no escopo de se autoafirmarem como pretensos agentes de transformação social, muitas vezes canalizam de modo violento condutas típicas de cristofobia.

 

E este último caso, infelizmente, Charlie Kirk estava de fato numa linha de tiro real.


Fonte, Matéria e Produção: Geisel Ramos

Publicação: Geisel Ramos


1 comentário


Regina Rebelo
Regina Rebelo
15 de set. de 2025

Excelente o texto.

Parabéns por postá-lo.

É bem elucidativo e complementar ao que andamos observando pelo mundo.

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