Aquela dor que nunca adormece: ecos do 07 de outubro, dois anos depois.
- Geisel Ramos

- 7 de out. de 2025
- 16 min de leitura
Como medir o tempo?
Desde as antigas clepsidras até o relógio atômico, passando por ponteiros ancestrais que curvam suas generosas sombras no solo enquanto brilha o Sol no céu, mensurar nossa existência em marcações artificiais deixou de ser um desafio. O calendário se transformou em um aliado cotidiano, e passamos a controlar o chronos sem maiores percalços.
Mas e se esta habitual dimensão calculável se torna intangível, sendo computada de modo distinto por cada um de nós? O que fazer quando as unidades clássicas que aferem com exatidão nosso transcurso terrestre perdem seus referenciais e nos turvam a mente?
Dias, horas, anos, minutos. Tudo se choca, se funde e se esmigalha, e ao final, como espectadores anônimos de um número teatral onde lutamos para entender o enredo, percebemos que o que realmente importa não se mede com indicadores humanos, porém com as agulhas de uma bússola que sempre é direcionada por nossas emoções e marcos afetivos, e cuja intensidade varia de pessoa para pessoa.
Como então medir dois anos?
Para a grande maioria de nós, a acostumada rotina diária poderá ocultar alguns lampejos de lazer a sós ou em família, certos momentos de tristeza e outros mais de puro êxtase. Contudo, no final saberemos contar o que fizemos neste período de dois anos.
Porém, para alguns poucos de nós, não são dois anos.
Para Elkana Bohbot, Rom Braslavski e Avinatan Or, entre muitos outros, são 731 dias em que a luz solar não os alcança e a dor física os aflige sobremaneira, enfurnados que estão em túneis frios e flertando com a morte a todo instante.
Para os parentes de Ariel Cunio, Matan Zangauker e os irmãos Gali e Ziv Berman, entre muitos outros, são 17.544 horas sem abraçá-los, sem fitá-los nos olhos, sem beijar-lhes a face, pois lhes foram arrancados de modo abrupto e inesperado, enquanto a espera pelo reencontro lhes perpassa a alma.
Para Yarden Bibas, são 1.052.640 minutos desde que viu pela última vez vivos sua esposa Shiri e seus filhos Ariel e Kfir, que no dia da despedida forçada estavam com quatro anos e nove meses de idade, respectivamente.
E para muitos de nós, são mais de 63 milhões de segundos de um torpor em tentar compreender como os instintos mais primitivos da nossa natureza caída podem abrir os portais de uma dimensão tão obscura que apenas pouquíssimos exemplos na literatura eclesiástica e secular – como o Hades e o Inferno de Dante – ousaram traduzir.

Hoje, 07 de outubro de 2025, rememoramos o dia em que, numa insuspeita manhã em Israel, mais de 1.200 pessoas foram tragadas para as profundezas deste universo tétrico, algumas de maneiras inimaginavelmente atrozes. Milhares de outras restaram feridas, física e psicologicamente. 255 reféns de 42 países foram arrastados com violência para masmorras modernas, sendo que 48 deles ainda continuam presos naquelas tumbas escuras, sem contato com o mundo exterior.
E mergulhados neste transe interminável, onde o cronômetro congelou no momento em que se ouviu o primeiro disparo de metralhadora e se viu o primeiro míssil lançado, queremos subir desesperados para os átrios luminosos acima de nós, gritando com uma descomunal força que somente o choque e a indignação podem produzir: “Deus, por que Tu estás explicando isto de forma tão dolorosa?”
Era esse o único bálsamo para aquilo que Clitemnestra, de Ésquilo, falando do antigo assassinato da filha, chamou de “aquela dor que nunca adormece”.
Mas hoje aqui não iremos abordar os detalhes dos ataques de 07 de outubro em si, fartamente documentados à época e já muito esmiuçado.
Vamos explorar um pouco do seu day after, que se prolonga até o instante atual como consequência das ações que brotaram violentamente do seio da terra israelense naquela manhã do feriado de Simchat Torá (celebração que marca o encerramento e o reinício da leitura anual da Torá – o livro mais sagrado do Judaísmo), quando quem não estava em observância religiosa ou descansando, se encontrava dançando e se divertindo na festa rave Nova, praticamente defronte à cerca que separava a Faixa de Gaza do Sul de Israel, um dos primeiros locais a serem golpeados pela bestialidade dos terroristas dos Hamas.
Entretanto, como resposta ao esforço de grande parte da mídia global, bem como de alguns governos e organizações, em obscurecer ou no mínimo alterar os fatos tal como ocorreram, fica abaixo um vasto acervo documental, exibindo fotos e vídeos do massacre e que pode ser visualizado ao se escanear o QR Code (ALERTA: ESTE CONTEÚDO NÃO É, DE MODO ALGUM, ADEQUADO PARA PESSOAS SENSÍVEIS, porém mister se faz sua divulgação, com o intuito de não deixar este trágico evento cair no esquecimento. Recomenda-se cautela e discrição aos espectadores).

Dito isto, sigamos sobre os efeitos diretos e indiretos do pior ataque terrorista que Israel sofreu em sua existência como nação moderna, o mais mortal cometido contra o povo judeu pós-Holocausto nazista.
A mídia e o 07 de outubro
No mesmo compasso em que as primeiras imagens do terrorismo de 07 de outubro grassavam nas telas de TV e as redes sociais, estarrecendo quem as assistia durante os primeiros dias em que o mundo tentava, atordoado, absorver a dimensão daquela catástrofe, uma parte da cobertura jornalística se voltou para mostrar o outro lado do iminente conflito.
Teria sido uma conduta normal, observada em outros momentos da História, não fosse o fato de que ali se começou a construir uma equivalência moral surpreendente: sob a justificativa de que o histórico de hostilidades entre Israel e os palestinos “não começara em 07 de outubro”, as ações do Hamas passaram a ser legitimadas como um genuíno direito de resposta à ocupação militar que teve início logo após a Guerra da Independência de Israel, em 1948.
Dia e noite, ainda sob a lembrança de corpos de bebês mutilados, mulheres barbaramente violentadas e milhares de pessoas que tiveram suas trajetórias repentinamente interrompidas sem qualquer chance de defesa, o que se viu foi uma incomum operação de santificação da causa defendida pelo assim denominado “movimento de resistência” Hamas, praticamente colocando sobre as vítimas do 07 de outubro a culpa pela sua própria imolação.
Quase sempre era dito que as Forças de Defesa de Israel (IDF) “atacavam”, quando em verdade buscavam os responsáveis pela ação terrorista e tentavam resgatar dezenas de reféns levados para as entranhas da Faixa de Gaza, e que uma mortandade estava sendo perpetrado contra o povo palestino (deliberadamente colocado pelos terroristas na linha de frente do embate bélico, como se veio a saber com o tempo, na posição de escudo humano).
Esta cobertura claramente parcial de boa parte da imprensa mundial, conjugada ao trabalho de vários movimentos sociais e políticos sob uma impressionante articulação em nível internacional, foi um dos responsáveis pela nova onda de antissemitismo que eclodiu no planeta, ironicamente surgida na esteira de uma inominável agressão ao povo hebreu em sua pátria ancestral, e que alimentada pela desinformação, fruto da má compreensão da intrincada história deste contexto milenar, fomentou situações insólitas.
Uma das fake news mais escabrosas daí advindas falou sobre um ataque ao Hospital Al-Ahli, localizado em Gaza, em 17 de outubro de 2023. Sem o devido critério investigativo, a notícia de que cerca de 500 pessoas haviam morrido no local em razão de um bombardeio israelense ganhou as redes sociais em poucos minutos e causou revolta mundial, mas tudo se esclareceu horas depois: um foguete lançado contra Israel pela Jihad Islâmica (outro grupo terrorista que participou dos atentados em 07 de outubro) deu meia-volta e atingiu em cheio o estacionamento do nosocômio, vitimando bem menos pessoas e destruindo alguns carros.
Dias depois, vários jornais mundo afora (inclusive a brasileiríssima Folha de São Paulo) publicaram retratações sobre o equívoco ocorrido, mas já era tarde demais para evitar outra tragédia: horas antes, como resultado daquela inconsequente falha jornalística, dois torcedores suecos que estavam na Bélgica para assistirem a uma partida de sua seleção pelas eliminatórias da Eurocopa foram assassinados a tiros por uma célula do Estado Islâmico, ato este cometido em represália ao “ataque” de Israel contra o Hospital Al-Ahli.

E o que falar da Al Jazeera? A maior rede de televisão do mundo árabe, sediada no Catar, tinha permissão de operar dentro das fronteiras de Israel, mesmo após a invasão do dia 07 de outubro, quando a partir de então, na sua versão em língua inglesa, começou a fazer campanha aberta em prol da causa dos palestinos e denunciando as “atrocidades das forças de ocupação sionistas”.
Em paralelo, Israel afirmou que alguns jornalistas afiliados à Al Jazeera não apenas colaboravam secretamente com o Hamas como também tomaram parte nas ações do dia 07 de outubro, fomentando sérias suspeitas de que eles já conheciam previamente os planos da operação criminosa.
Tudo foi escalando até que no início de maio deste ano, o gabinete governamental de Israel votou em unanimidade pela expulsão da Al Jazeera no país, ordenando imediatamente o fechamento de seus escritórios e a proibição das transmissões da emissora, o que aumentou ainda mais animosidade que a mídia mainstream já nutria para com tudo o que tinha a ver com Israel.

Reforçam esta teoria algumas baixas ocorridas nas redações de alguns países: a BBC inglesa demitiu o jornalista Osman Ahmed por publicações antissemitas em suas redes sociais. Na Austrália, Antoinette Latouff foi afastada da Australian Broadcasting Corporation (ABC) por compartilhar uma publicação crítica ao governo de Israel (posteriormente ela processou a ABC e conseguiu ser indenizada), e aqui no Brasil o presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Helio Doyle, foi demitido pelo governo federal após compartilhar um comentário veiculado no X (antigo Twitter), onde chamou de "idiota" quem apoia Israel.
Genocídio palestino?
Impulsionada por parte da mídia, que como se viu se portava bem colaborativa aos interesses anti-israelenses, a tese de que estaria havendo um genocídio na Faixa de Gaza ganhou força e ficou mais robusta quando foi cooptada por movimentos sociais dos mais variados espectros.
As estatísticas que embasavam esta afirmativa eram fornecidas pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas (!), e não passavam por nenhuma análise mais cuidadosa antes de desaguar no noticiário e nos discursos proferidos por meio de ruidosos megafones em manifestações. E assim, de modo pavloviano, o Hamas apitava os números e sua militância os repetia.
Porém, quando confrontada com dados estatísticos reais, a narrativa de um genocídio em Gaza é de notável fragilidade. Primeiramente, estamos falando de uma população que quase quadruplicou desde o estabelecimento do Estado hebreu, além do que segundo o World Factbook da CIA, houve um aumento de 2,02% na população do enclave desde que a guerra começou (segundo o Ministério da Saúde de Gaza, essas projeções não levam em conta o impacto da guerra, incluindo a alta mortalidade e a emigração, com mortes adicionais não contabilizadas por fome e causas indiretas).

Em comparação, a população judaica em todo o planeta atualmente é entre 15 e 16 milhões de indivíduos, número que ainda não superou o quantitativo antes do Holocausto na Segunda Guerra Mundial, quando havia 17 milhões de judeus espalhados pelo mundo.
Sobre Gaza ser “o maior campo de concentração a céu aberto da Terra”, isto vai de encontro ao fato de que antes dos ataques de 2023, milhares de palestinos cruzavam diariamente as passagens autorizadas para o território israelense, a fim de tratarem sua saúde e de trabalharem livremente como qualquer cidadão daquele país, valendo constar que a incursão de 07 de outubro foi bastante facilitada graças às informações apuradas por vários desses trabalhadores, que as coletaram durante meses a fio e as repassaram para as equipes do Hamas que orquestraram a carnificina.
E a respeito da crise alimentar? Cada vez mais recorrentes são as denúncias de confisco por parte do Hamas da ajuda humanitária fornecida pela ONU, União Europeia, muitas ONGs e por governos amigos, que a revende a preços inflacionados, além de guardarem uma parcela substancial para a alta cúpula da organização. Nas redes sociais, frequentes também são vídeos que exibem punições violentas aos cidadãos gazanos que ousam questionar esta usurpação e – pior ainda – pegar furtivamente algum alimento.
Dentro deste tópico do genocídio, vale também mencionar acerca de Pallywood, tida por muitos como uma teoria da conspiração criada com o escopo de destruir a credibilidade da causa palestina. Tratar-se-ia de um esquema abastecido por muito dinheiro (vindo sabe-se lá de onde), dedicado a produzir imagens de qualidade cinematográfica, mostrando vítimas de bombardeios israelenses a residências, escolas e hospitais, com direito a muita gritaria e sangue a cântaros, e que depois distribui estas tomadas pela web para todo o mundo árabe, e não apenas. Seja real ou não, a hipótese de uma “Hollywood palestina” gera fortes especulações e debates acalorados até hoje.
Uma militância contraditada
Digna de atenção é a condição imantada que a situação palestina adquiriu após o 07 de outubro. Poucos movimentos conseguiram capitalizar o ativismo de grupos assaz heterogêneos entre si quanto a luta por um Estado palestino from the river to the sea (do rio [Jordão] até o mar [Mediterrâneo] – o que na prática faria com que Israel deixasse de existir como entidade política).
Sindicatos, grêmios universitários, coletivos artísticos, associações LGBTs e até mesmo movimentos separatistas vestiram a camisa, ou melhor, enrolaram em seus pescoços o keffiyeh xadrez (um dos símbolos da identidade palestina, popularizado nos anos 70/80 por Yasser Arafat, uma de suas lideranças históricas), enchendo as ruas e campi universitários em massivas manifestações e ocupações de espaços públicos, em muitas ocasiões descambando para um confronto direto com as forças policiais.
Mas a coisa foi ganhando contornos, digamos, bem curiosos. Frases como “Lutar por Free Palestine é lutar pela sustentabilidade ambiental” e “Free Palestine é o novo Occupy Wall Street” levantaram questionamentos sobre o quão genuínas seriam as intenções daqueles contestantes (em sua maioria jovens adultos), que se diziam horrorizados pela matança de crianças e mulheres inocentes promovida pela IDF.

O surgimento de grupos como o Queers for Palestine (algo que pode ser traduzido como “Gays pela Palestina”, mas cujo epíteto no original em inglês é um termo muito mais pejorativo) não pareceu ser um chamamento à racionalidade minimamente circunstancial. Afinal, tudo era muito festivo, colorido, barulhento e alegre. Eram milhares de pessoas unidas por um ideal humanitário, celebrando a vida e a superação das diferenças (em que pesem acontecerem pontualmente sinalizações de claro antissemitismo, ou mesmo apologia à ideologia nazista, nestes protestos).
No entanto, eles parecem ignorar que de acordo com os preceitos islâmicos observados entre os palestinos, práticas homossexuais são estritamente proibidas, inclusive sendo passíveis de perseguição e sanções bem mais severas naqueles territórios (eufemismo para prisão ou mesmo morte), o que contrasta com a realidade de Tel Aviv, coração financeiro de Israel, uma das cidades mais gay friendly em todo o mundo e que promove anualmente uma vibrante parada do orgulho LGBT na atualidade.

E insistindo neste negacionismo (até que ponto involuntariamente?), os queers manifestantes terminam por vilipendiar a memória de Ahmad Abu Mahria, jovem gay palestino que em outubro de 2022 foi decapitado, crime até hoje não solucionado e considerado ter ligação com o ódio anti-LGBT largamente presente entre a majoritária população árabe de Hebron, cidade onde ele vivia. Um ano antes de morrer, temendo pela sua vida, Abu Mahria, por meio de uma ONG que ajuda homossexuais palestinos, havia conseguido um abrigo seguro... em Israel.
Junte-se a este manancial de paradoxos Greta Thumberg, a celebrada ativista lembrada pela sua abnegada entrega de vida à causa ecológica. Decidida a gozar um período sabático longe da defesa de um mundo sem combustíveis fósseis, a jovem sueca adotou o keffiyeh como bandeira de luta e capitaneia ações por toda a Europa para chamar a atenção aos acontecimentos no Oriente Médio, vociferando os mantras característicos e obrigatórios à ocasião em questão.
Em meses mais recentes, Greta tem protagonizado expedições náuticas em direção a Gaza, objetivando furar o bloqueio marítimo que Israel impôs ao território, estabelecido na tentativa de impedir que o Hamas volte a se rearmar com material bélico contrabandeado via marítima. Na última flotilha, denominada Sumud (“resiliência” em árabe), ela foi vista usando uma camiseta com a estampa da falecida política brasileira Marielle Franco (!!).
Como Marielle foi parar no meio desta história toda é de fato uma incógnita, especialmente por se tratar de uma mulher, feminista e LGBT sendo relembrada numa alegada ação humanitária que se descobriu depois ter sido promovida pelo Hamas, movimento o qual não é muito conhecido por ser cordial com questões que envolvam mulheres, feministas e LGBTs, para dizer o mínimo...
Complementando a informação acima, de acordo com uma notícia publicada no jornal The Times of Israel em 30 de setembro último, documentos encontrados em Gaza mostram "envolvimento direto" do Hamas com estas flotilhas, e segundo afirmou o Ministério das Relações Exteriores israelense, o material aponta laços entre o grupo terrorista e seu braço estrangeiro, o Palestinian Conference for Palestinians (PCPA), cujo líder no Reino Unido é o organizador daquelas cruzadas pelos mares, enquanto que um membro espanhol do PCPA é dono de alguns dos barcos que navegam para a Faixa de Gaza.
Os protestos da Rua Kaplan
Se fora de suas fronteiras Israel tem enfrentado uma encarniçada disputa pelo controle da narrativa quanto ao conflito, dentro delas a situação também não tem sido muito fácil.
Os israelenses continuam a buscar respostas para o que de fato motivou o mais sangrento morticínio ao seu país em toda a sua história, mas principalmente descobrir por que tudo aquilo não foi previsto a tempo de se evitar tamanha tragédia. Por vezes, as condições de temperatura e pressão se elevam, o que é agravado pela cruel realidade de, na data atual, 48 reféns, entre vivos e mortos, ainda permanecerem trancafiados nos calabouços da Faixa de Gaza e as sirenes que alertam sobre possíveis ataques aéreos, ainda que tenham diminuído em frequência, continuam a cortar os ares como um agouro dos infernos.
Com efeito, existe um foco expressivo de dissensão na nação judaica, cuja expressão mais visível é o movimento da Rua Kaplan, via pública que se situa em Tel Aviv, onde desde janeiro de 2023, a cada sábado à noite, logo após o encerramento do shabbat, milhares de israelenses contrários às políticas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vinham se reunindo para protestar.

Inicialmente, as manifestações tinham por pauta a reforma judicial que Netanyahu estava tentando implementar na Suprema Corte de Israel, a qual os protestantes da Rua Kaplan eram contrários, mas com o advento dos episódios de 07 de outubro de 2023 e a guerra que se desencadeou na sequência, a dinâmica dos encontros semanais ali ocorridos mudou, abarcando a situação dos reféns e dando vazão à indignação popular sobre como o governo e o comando militar estavam a manejar as operações em Gaza e as negociações para a libertação dos reféns.
Logo surgiram rumores de que os “kaplanistas”, como ficaram conhecidos os organizadores dos protestos, estavam sendo financiados com dinheiro estrangeiro, injetado no intuito de fomentar uma insatisfação popular cada vez maior, a ponto de desestabilizar o governo Netanyahu e forçar sua queda. Tal acusação é rebatida pelo grupo, sob o argumento de que o movimento é puramente orgânico.
O papel da ONU
Os burburinhos de que a ONU mantinha uma postura ambígua com relação ao conflito árabe-israelense, quase sempre pendendo a balança da salvaguarda política mais a favor dos palestinos, são antigos, mas saíram do patamar de mera boataria e passaram a ser encarados por Israel como uma questão séria de segurança nacional após o infame 07 de outubro de 2023.
Aliado ao fato de existirem em Gaza 36 hospitais antes da guerra – número considerado elevado por alguns especialistas para um lugar habitado por dois milhões de pessoas – a presença de muitas escolas da ONU nutria desconfianças por parte de setores da sociedade israelense com relação a este “excesso de altruísmo educacional”, mormente quando é lembrado que, à luz do Direito Internacional Humanitário, escolas e hospitais são instalações civis protegidas, mas que podem perder essa proteção e se tornarem alvos militares legítimos se forem usadas para tais fins, como esconderijo de combatentes ou armazenamento de armas.
Não deu outra. Assim que começaram as incursões terrestres das forças da IDF pelo território gazano, documentos internos do Hamas apreendidos pelo Exército atestaram a presença de membros do grupo terrorista em escolas da ONU, o que inclusive foi noticiado pelos jornalistas Jo Becker e Adam Rasgon, do New York Times, em matéria publicada na Folha de São Paulo, onde se lia que 24 funcionários da UNRWA (a agência da ONU voltada para refugiados palestinos), estariam envolvidos com as atividades do grupo terrorista.
Um destes combatentes, Ahmad Al-Khatib, era funcionário da agência da ONU desde 2013, e de acordo com os documentos apreendidos, ele detinha o cargo de comandante de esquadrão e era especializado em combate terrestre.
A UNRWA, que de tão criticada pelo governo de Netanyahu acabou por ser banida de Israel, administrava muitas escolas em toda a Faixa de Gaza, antes de estas serem fechadas após o início da guerra que agora se desenrola, e os militares israelenses fizeram questão de documentarem o interior de várias delas, não raro sendo descobertos túneis escavados debaixo de salas de aula, pelos quais os terroristas transitavam e quiçá, em determinadas vezes, ocultavam armas e até reféns abduzidos no dia 07 de outubro.

A história revelada era tão bizarra que a ONU se viu obrigada, em agosto de 2024, a demitir funcionários da UNRWA suspeitos de envolvimento no que ficou conhecido como o “11 de setembro israelense”. Um inquérito interno investigou dezenove funcionários daquela agência, e no final dos trabalhos havia evidências suficientes para concluir que nove deles poderiam ter participado da barbárie.
Post scriptum
Não há uma maneira satisfatória, sequer conveniente, em terminar estas poucas linhas sobre este assunto que beira o inesgotável, simplesmente porque o mesmo parece bem longe de se encerrar.
Para algumas atormentadas famílias em Israel, a vida está dependurada em um imaginário varal do tempo, paralisada à espera de entes queridos (ou de seus corpos), perdidos que estão no cativeiro das entranhas da zona de guerra. Orações são feitas por eles diariamente, enquanto seus rostos são vistos na TV e em cartazes e banners espalhados por todo o país.
O desmantelamento total do Hamas, já bastante enfraquecido após estes dois anos, embora seja um desejo da atual administração israelense, esbarra no complexo xadrez geopolítico da região, que muitos desistiram de tentar entender em virtude das diversas reviravoltas vivenciadas.
A guerra transpassou a circunscrição israelo-palestina e se alastrou para quase todo o Oriente Médio, engolfando o Irã (apontado como mentor intelectual e financiador do 07 de outubro), quase todos os países da Península Arábica e várias outras nações, em maior ou menor grau. As implicações deste alargamento ainda estão para ser assimiladas, e qualquer prognóstico é prematuro.
O mundo assiste a tudo sob o signo da polarização que já o rege há pelo menos uma década, ao menos em sua forma mais evidente. Quase todos os regimes tomaram um lado no conflito, e esta divisão ratifica a identidade ideológica de cada um deles, que gradualmente se reúnem em blocos de afinidade político-econômica.
E quanto a todos nós? Quer queiramos ou não, também fomos vitimados naquele 07 de outubro de 2023. A humanidade foi mais uma vez ferida em uma quase morte, décadas depois de ter jurado sob estatutos humanos e divinos que nunca mais permitiria que uma selvageria como aquela se repetisse contra um povo que tudo o que queria era viver. Apenas viver.
Falhamos miseravelmente. As vítimas reais do 07 de outubro, estejam neste plano terreno ou não, continuam a ser torturadas e desrespeitadas, diante da negação de suas histórias de martírios, que já começam a ser reescritas a fim de se adequarem a um novo estilo de civilização. Temeroso estilo, pois rejeita a verdade e brinda a injustiça, como prova o ressurgimento global do antissemitismo, principalmente na Europa e nos EUA.
Mas ainda há tempo para que este pernicioso revisionismo seja evitado. Seja em horas, dias ou anos. Ainda há tempo.
NUNCA MAIS É AGORA!
Bônus: Para os que desejam se aprofundar no tema, aqui abaixo estão os links de dois documentários muito ricos em informação e credibilidade.
FROM THE RIVER TO THE SEA (Brasil Paralelo):
SCREAMS BEFORE SILENCE (Completo, em inglês):
SCREAMS BEFORE SILENCE (Trecho com versão em português):
Fonte, Matéria e Produção: Geisel Ramos
Publicação: Geisel Ramos






Um texto espetacular, com relatos incríveis sobre o fatídico 7 de outubro, uma mancha na história que jamais será esquecido. Parabéns! Que o Senhor abençoe e proteja Israel.