O legado dos judeus sefarditas na Europa e nas Américas: uma entrevista com o escritor israelense Dov Lipschutz.
- Geisel Ramos

- 23 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2025

A história da influência judaica nas Américas é um assunto que, por mais que já tenha sido estudado e servido de inspiração para trabalhos científicos e obras literários dos mais diversos gêneros, continua a fornecer muito conteúdo de um acervo que beira o inesgotável, tamanha que foi a importância do povo judeu na formação do tecido social do Novo Mundo.
Entretanto, bem antes de os primeiros navegadores aportarem no continente americano, depois do qual os primeiros judeus começaram a se instalar nas terras recém descobertas, uma vibrante herança cultural e religiosa já se manifestava na Europa medieval, no seio de comunidades judaicas espalhadas pelo continente inteiro, atestando a contribuição que este povo legou a toda a humanidade.
Este grupamento milenar não é uniforme, subdividindo-se em diversos segmentos baseados em suas origens geográficas e culturais, sendo a classificação mais conhecida a que categoriza os judeus em asquenazes (originários da Alemanha e que se espalharam pela Europa Central e Oriental) e sefarditas (oriundos da Península Ibérica – Espanha e Portugal – e que após a expulsão, se dispersaram pelo Norte da África, Oriente Médio e outras partes da Europa).
O Brasil recebeu um contingente considerável de ambas as comunidades, sendo bastante marcante o fato de os sefarditas se concentrarem no Norte e, principalmente, no Nordeste brasileiro, onde diversas pesquisas apontam que a maioria de sua população possui ancestralidade judaica, fato corroborado pelos diversos vestígios na culinária, em costumes cotidianos, em algumas vestimentas e nos vários sobrenomes característicos dos “cristãos-novos” (judeus e seus descendentes que foram forçados a se converter ao cristianismo na Península Ibérica, especialmente no final do século XV) que muitos carregam em suas certidões de nascimento.
Como parte do esforço de manter viva esta herança sefardita na história dos dois continentes, alguns escritores modernos têm publicado trabalhos importantes, sejam ficção ou novos estudos acadêmicos, e a RedeVox News conversou com Dov Lipschutz, um escritor e bibliotecário israelense, que recentemente lançou o romance “O Menino de Sagunto”, o a qual narra um pouco deste rico patrimônio histórico que os sefarditas nos presentearam. A seguir, seguem trechos da entrevista.

Sr. Lipschutz, pode descrever os destaques do seu romance "O Menino de Sagunto"?
O “Menino de Sagunto” conta a história de Yosef, um jovem da comunidade judaica de Sagunto, na Espanha, que é sequestrado e embarca em uma jornada pela África — primeiro para sobreviver e, mais tarde, para tentar retornar à sua terra natal, a Península Ibérica. Em pouco tempo, ele se reencontra com seus pais, apenas para descobrir que outra jornada o aguarda — a expulsão dos judeus da Espanha.
Em meu romance, não ignoro o contexto histórico: o reinado de Fernando e Isabel e as primeiras viagens ao Novo Mundo. O livro faz parte de uma trilogia; o segundo volume já está em fase de edição e se passa cerca de trinta anos depois. Não revelarei muito, mas posso dizer que começa no derrotado Império Asteca.
Nestes livros, dou vida à herança dos judeus sefarditas, um legado que continua até hoje em vários aspectos — principalmente na cultura religiosa e musical.
Como lhe surgiu essa paixão pela história sefardita?
A paixão por história e cultura sempre esteve presente em mim. Meu pai é um homem de livros e, quando criança, fui membro da biblioteca da escola e da biblioteca municipal. Sempre fui atraído por História e Geografia, e desenvolvi um profundo amor pela herança sefardita. Com o tempo, isso me levou a cursar um mestrado e um doutorado em Literatura Judaica Sefardita — talvez por curiosidade, e talvez porque minha própria origem seja metade asquenaze e metade norte-africana, onde minha mãe nasceu.
Há interesse em descobrir esse legado sefardita entre as novas gerações em Israel?
A geração mais jovem em Israel está constantemente descobrindo novas áreas de interesse. Um exemplo surpreendente de entusiasmo renovado pela tradição sefardita é a crescente participação de jovens nas noites de Selichot (orações penitenciais judaicas de perdão e arrependimento) no Muro das Lamentações, em Jerusalém e em outros lugares. As orações de Selichot, com suas belas melodias, desenvolveram-se principalmente na Península Ibérica e, posteriormente, se espalharam pelo Mediterrâneo com os exilados da Espanha.
No entanto, ainda há relativamente pouco conhecimento sobre a história mais ampla do judaísmo sefardita. Eu, juntamente com vários outros escritores, estou tentando tornar essa rica herança mais acessível por meio da narração de histórias.

Seu trabalho transcendeu as fronteiras do seu país? Como foi recebido?
Meu trabalho ainda não alcançou muito além de Israel, embora tenha recebido uma resposta maravilhosa de Yehoram Gaon — um cantor israelense muito famoso de origem sefardita, que também se apresenta em ladino (a língua falada pela comunidade sefardita, derivada do espanhol medieval e com muitos elementos hebraicos). Também enviei dois exemplares do meu livro para um amigo, guia do Museu Judaico de Sagunto. Ele apreciou profundamente minha homenagem e até tirou uma foto do livro tendo como pano de fundo as ruas da judería (o antigo bairro judeu).
O senhor considera esse conhecimento da história sefardita importante para o povo ibero-americano?
Certamente. Primeiro, porque uma parte significativa da cultura e da língua da América Latina tem origem na Península Ibérica — com suas diversas influências culturais, incluindo a judaica. Além disso, uma parcela da população em países como México, Brasil e ilhas do Caribe descende de conversos (judeus convertidos forçadamente ao Cristianismo).
Em segundo lugar, não se pode ignorar que, paralelamente à disseminação da cultura ibérica, veio a perseguição aos povos nativos das Américas — assim como os próprios judeus foram perseguidos. O período sobre o qual escrevo é justamente a era das grandes viagens de descobrimento do Novo Mundo — incluindo, é claro, a descoberta do Brasil.
Por fim, gostaria de deixar uma mensagem para seus futuros leitores brasileiros?
Aos meus novos amigos no Brasil — admiro profundamente a alegria de viver brasileira, juntamente com a bela música, a cultura vibrante, o calor humano e a profunda humanidade que definem o seu país. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer os fundamentos culturais sobre os quais tudo isso se baseia — e entender que parte disso também veio do outro lado do mar, da Península Ibérica.

Obrigado, Sr. Lipschutz, e parabéns pelo seu importante trabalho. Mazel tov!
Eu que agradeço!
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Nota:
No momento, “O Menino de Sagunto” pode ser adquirido apenas em hebraico, em plataformas de livros digitais, como a Ivrit Digital Books:
A versão desta entrevista em Inglês Americano original >> Clique na Bandeira ou no link
Maiores informações sobre o autor e sua obra, acesse a página pessoal no Facebook:
Fotografias: Arquivo pessoal de Dov Lipschutz.
Entrevista realizada pelo jornalista correspondente Geisel Ramos (DRT 007984/PE)










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